Você já sabe que a fimose fisiológica é uma condição normal em crianças, e que a literatura médico-científica desmistifica uma série de inverdades amplamente difundidas sobre fimose infantil. Conheça agora as linhas de ação recomendadas quando a fimose do seu filho for realmente um problema.

1. Aderências entre o prepúcio e a glande

A aderência bálano-prepucial (ABP) é na verdade uma camada de epitélio cujo papel é proteger o interior do pênis de contaminações durante os primeiros anos de vida, e tende a se desfazer de maneira espontânea durante a infância:

Desenvolvimento da aderencia no penis infantil

Caso isso não ocorra, e o menino apresente inflamações recorrentes como balanites, pode ser necessário um intervento médico para que ocorra o descolamento.

Mas esse intervento não precisa ser cirúrgico. Uma técnica simples e indolor utilizando mistura eutética de anestésicos locais ("MEAL"), por exemplo, é extremamente eficaz no desfazimento das aderências em consultório médico.

2. Fimose congênita

Clique para ver
Estreitamento congênito

A fimose congênita (também chamada de fisiológica) devido a abertura prepucial estreita (anel fimótico) também tende a se resolver espontaneamente até a puberdade e normalmente não constitui nenhum problema. Não raro, entretanto, podem se manifestar quadros como balonamento do prepúcio ao urinar, bloqueio urinário parcial ("spray" de urina), infecção crônica do trato urinário ou balanites (inflamações da glande) de repetição que requeiram um aceleramento no processo de alargamento do anel fimótico fisiológico.

Para tais casos, existem basicamente duas abordagens:

2.1 Pomada

A aplicação de esteroide tópico (pomada corticoide) como o valerato de betametasona, entre outros, vendo sendo utilizada há mais de duas décadas e apresentado ótimos resultados. No Brasil, também existe uma pomada específica para fimose, a Postec: além do valerato de betametasona, esse medicamento ainda contém uma enzima chamada hialuronidase, cuja função é reduzir temporariamente a viscosidade do tecido conjuntivo e portanto tornar a pele mais maleável.

2.2 Colocação de anel alargador

Nos raros casos em que o paciente não responde ao tratamento com pomada corticoide, um intervento conservativo (ou seja, sem amputação de tecido) como a colocação de um anel de plástico ou silicone pode ser indicado.

É importante que esse procedimento seja efetuado em consultório médico por um pediatra ou profissional qualificado.

O anel alargador é introduzido pelo profissional interiormente ao anel fimótico, e nos dias sucessivos vai gradualmente alargando a abertura prepucial, até cair sozinho em no máximo 2 semanas. Ele não impede a micção e não necessita de curativos, mas é recomendável que seja utilizado em concomitância com uma pomada anestésica.

Ao contrário da postectomia (circuncisão), esse intervento preserva as funções de proteção, lubrificação e sensibilidade desempenhadas pelo prepúcio.

3. Fimose secundária

Dependendo de sua etiologia e estágio de manifestação, a fimose secundária (também chamada de patológica ou adquirida) pode não requerer, necessariamente, intervento cirúrgico.

Boa parte das inflamações no prepúcio (postites) é de origem infecciosa e responde bem a tratamentos com antibióticos ou fungicidas. Já a fimose patológica devida a líquen escleroso atrófico (LEA) em alguns casos pode ser revertida com a aplicação tópica de corticóide ultrapotente, que deveria ser o tratamento de primeira escolha para tal condição.

Exemplos de fimose secundária

Clique para ver
Postite - exemplo 1

Clique para ver
Postite - exemplo 2

Clique para ver
LEA - exemplo 1

Clique para ver
LEA - exemplo 2

É importante que se tente a reversão da patologia com métodos não-invasivos e conservativos pelos seguintes motivos:

  • o prepúcio não é um pedaço de pele inútil. Ele serve para manter a glande protegida, lubrificada e sensível a estímulos táteis. Além disso, sua mucosa interna é intensamente inervada e erógena, e sua remoção irá privar seu filho, mais tarde, de uma série de estímulos sensoriais.
  • estudos demonstram que até mesmo a circuncisão realizada logo após o nascimento é traumática e pode deixar profundas sequelas psicológicas. E se o menino estiver na chamada fase fálica (entre 3 e 6 anos, estágio do desenvolvimento psicossexual em que a criança descobre sua própria genitália e a diferença entre os sexos), a amputação do prepúcio pode ser inconscientemente percebida como um ato de agressão e até mesmo de castração, e causar, entre outros, danos nas suas capacidades de adaptação familiar e social.

Quando a doença de pele causadora da fimose patológica não puder ser curada com tratamento medicamentoso ou estiver em estágio de manifestação muito avançado, a postectomia (circuncisão terapêutica, ou seja, remoção cirúrgica do prepúcio) é a linha de ação recomendada. Nesse caso, procure conversar com seu filho e explicar exatamente o que e por que será feito.

Muitas vezes é difícil não se deixar influenciar por interesses econômicos alheios ou pressões culturais. Mas você, pai ou mãe, tem a obrigação de se informar e refletir de acordo com o peso do fardo que poderá carregar caso sua decisão não seja a melhor para o seu filho. E se você chegou até aqui é porque já está fazendo o seu dever: parabéns.

Referências

- Oster J (1968). Further fate of the foreskin. Incidence of preputial adhesions, phimosis, and smegma among Danish schoolboys. Archives of Disease in Childhood, 43(228):200-203.
- Wright JE (1994). Further to "the further fate of the foreskin". Medical J of Australia, 160:134-5.
- MacKinlay GA (1988). Save the Prepuce. Painless separation of preputial adhesions in the outpatient clinic. British Medical J, 297:590-1.
- Thorvaldsen MA, Meyhoff H (2005). Phimosis: pathological or physiological? Ugeskr Læger, 167(17):1858-62.
- Kikiros C, Beasley S, Woodward A (1993). The response of phimosis to local steroid application. Pediatric Surgery International, 8(4):329-332.
- Yilmaz E, Batislam E, Basar M, Basar H (2003). Psychological trauma of circumcision in the phallic period could be avoided by using topical steroids. International J of Urology, 10(12):651-656.
- Shahid SK (2012). Phimosis in Children. ISRN Urology, 2012:707329.
- http://www.savingsons.org/2014/03/extreme-ballooning-in-intact-child.html
- Edwards S, Bunker C, Ziller F, Meijden W (2014). 2013 European guideline for the management of balanoposthitis. International J of STD & AIDS, 25(9):615-626.
- Neill SM, Tatnall FM, Cox NH (2002). Guidelines for the management of lichen sclerosus. British J. of Dermatology, 147:640-9.
- Taylor JR, Lockwood AP, Taylor AJ (1996). The prepuce: specialized mucosa of the penis and its loss to circumcision. British J of Urology, 77:291-5.​
- Goldman R (2002). The psychological impact of circumcision. British J of Urology International, 83(S1):93-102.
- Frisch M, Simonsen J (2015). Ritual circumcision and risk of autism spectrum disorder in 0- to 9-year-old boys: National cohort study in Denmark. J of the Royal Society of Medicine, 108(7):266-279.
- Cansever G (1965). Psychological effects of circumcision. British J of Medical Psychology, 38:321-31.